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Essa declaração pode impactar e soar preconceituosa de primeiro momento, e minha ideia era justamente causar uma reflexão.

Fui convidado pela CALONE para escrever sobre o idadismo, e se você não sabe o que esse termo significa eu te explico agora: o idadismo é o preconceito em relação a idade, ele surge quando alguma atitude ou fala é utilizada para categorizar e dividir as pessoas de maneira injusta por conta da sua idade.

Eu atendo muitas mulheres, das mais diferentes idades e isso me fez aprender muito com cada uma delas e suas histórias, mas a principal lição é que a jovialidade não tem haver com o tempo, com a idade, com a aparência, mas apenas e exclusivamente com a alma. Isso pode até parecer algo filosófico, mas é a pura verdade, a jovialidade está na nossa mente, no nosso interior e na nossa visão de vida.

Mas quando falamos em beleza, especialmente em minha área de atuação, sabemos que com o avanço da idade os fios brancos inevitavelmente surgem e muitas mulheres se sentem na obrigação de colorir esses fios imediatamente, é errado? A resposta é não, com um porém: se isso for apenas por sua vontade e não para agradar uma sociedade, essa é minha opinião. Cabelo branco não é sinônimo de falta de beleza ou descuido, isso precisa ser dito e desmistificado. Para escrever sobre isso eu logo pensei em fazer um convite para uma cliente muito especial que é a Valéria Rossatti. Minha cliente há muitos anos que passou pelo processo de transição para os fios brancos, os assumindo completamente. Hoje, ela é uma super top model que encanta a todos com seus cabelos grisalhos, os quais eu tenho a honra de cuidar.

A equipe de redação da CALONE preparou uma entrevista incrível com ela, confira a seguir:

Como conheceu o profissional Cezar Nardi e o que te fez permanecer como cliente fiel do Hair Stylist?

R: Eu conheço o Cézar há muitos anos e desde a primeira vez que tive contato com ele, nunca mais larguei. Ele é um profissional que escuta muito as clientes, ele leva em conta o nosso lifestyle, se a cliente tem mais tempo pra gastar passando pomada, mousse, essas coisas, finalizando o cabelo ou não. Ele leva em conta, obviamente, essa parte mais técnica, o tipo de cabelo. Acho que onde mais o Cezar se destaca é isso, além dele ter muito conhecimento técnico ele é um bom ouvinte e ele é parcimonioso, então ele nunca ultrapassa os limites. Eu acho ele sensacional, genial, eu amo. Amo o trabalho dele e como ele conduz a carreira dele.

Conte um pouco sobre seu processo de transição para assumir 100% dos cabelos naturais e como Cézar foi importante nessa jornada:

R: Meu processo de transição foi um tanto quanto bem tranquilo, orgânico, suave. Eu simplesmente acordei um dia sem vontade de pintar o cabelo, de pintar a raiz. Quando eu comuniquei ao Cezar, ele sendo muito inteligente, muito aberto, acolheu de forma muito natural e foi tranquilo. Nossa relação é muito orgânica, ele é muito atento às novidades. Então em nenhum momento ele falou pra mim “Ai será que você vai fazer isso?”, muito pelo contrário, ele acolheu.

Fale sobre sua trajetória profissional e como a moda entrou na sua vida

R: A moda entrou na minha vida desde sempre, as pessoas acham que depois do cabelo branco eu comecei a transitar na moda. Não. Eu fiz faculdade de moda, é um tema que eu sempre gostei, minha paixão. Eu sempre me interessei sobre como as pessoas se vestem, quais as mensagens que elas querem passar com aquele tipo de vestimenta, atitude, acessórios. As músicas que elas ouvem, porque música e moda estão relacionadas, então eu sempre fui da moda. Antes disso… de eu ter esse papel de destaque na publicidade e na moda por conta dos cabelos brancos, eu já conhecia muita gente da indústria mas não trabalhava com isso. Embora eu tenha me formado, como eu casei muito cedo e tive filhos muito cedo, eu trabalhava num escritório numa pequena empresa do meu pai. E aí quando eu fiz a transição sem nenhuma intenção, simplesmente foi pra me libertar mesmo das tintas. Eu fui a primeira modelo grisalha de destaque no país, simplesmente não existia ninguém de destaque nesse lugar. Eu não tinha referências de mulheres grisalhas com atitudes que condiziam com a minha, então eu tive que me reinventar. Na verdade, eu fui eu mesma, enfrentando olhares preconceituosos. Claro, porque era uma coisa muito nova e ainda é. As pessoas ainda não entenderam o cabelo grisalho, mas eu tive que me refazer. Então, foi também uma coisa muito curiosa isso que aconteceu na minha vida, foi muito orgânico, nada foi planejado, mas eu também não larguei o osso, eu vi que tinha uma oportunidade ali, agarrei com tudo e comecei a surfar a onda grande.

Após assumir os cabelos brancos, você sofreu preconceitos? Se sim, como lida com isso?

R: Claro que sofri preconceitos. Porque, principalmente no Brasil, onde a questão da beleza e da juventude é levada a sério, muito sério a ponto de acharem que ser velha é um problema. Tem gente que xinga as outras “ah aquela velha”, usa esse termo para xingamento. Então claro que eu enfrentei preconceitos, muitos…de amiga da minha mãe falar assim “Não faz isso, tu tem um rosto tão bonito. Pra que você vai fazer uma coisa dessas?”. Porque elas associam o cabelo branco à velhice e automaticamente a velhice ao fim da vida, algo ruim ou a uma pessoa que não é produtiva, tá muito enraizado isso na gente. Então hoje em dia eu lido muito bem com isso. Existe muito preconceito quando eu faço campanhas, por exemplo, infelizmente, ainda existem pessoas preconceituosas. Quando eu faço uma campanha eu sempre procuro ler os comentários das seguidoras e consumidoras das marcas no Instagram e às vezes leio coisas como: “Nossa não gostei da escolha da modelo grisalha para essa campanha”. A pessoa que tá ali criticando a escolha de uma modelo grisalha, está somente mostrando que ela não aceita a idade da forma como ela deveria aceitar, o passar do tempo. Essa pessoa provavelmente vai ter questões quando ela for mais velha, porque se tem uma coisa que a gente não tem nenhum controle é sobre a passagem do tempo. Hoje em dia eu lido bem. Já foi difícil? Já foi muito difícil, mas hoje em dia tá bem tranquilo para mim.

Você acredita que o idadismo é uma forma de preconceito? Como acredita que podemos combater isso?

R: Sim, existe o preconceito contra as pessoas mais velhas, isso é fato. Quando tem uma mulher mais velha numa campanha “Ah, o que essa velha está fazendo aí?”. É como um xingamento. As pessoas têm um desejo de que todos permaneçam jovens para sempre. A Xuxa quando faz um post sem maquiagem, sem filtro, por exemplo, recebe comentários do tipo: “Nossa como ela envelheceu.” Gente, ela envelheceu. Está todo mundo envelhecendo, né? Então é uma pena que ainda existam muitas pessoas com esse tipo de preconceito que pode ser chamado de etarismo ou idadismo. Para combater isso, a gente precisa entender que a idade madura é uma fase da vida como outra qualquer. E que bom que estamos amadurecendo, e que bom que existe o passar dos anos, e que bom que tem algumas mulheres que mostrem o cabelo branco, as rugas, a pele mais flácida. Porque faz parte, não dá pra gente ficar nessa mentira eterna, porque é uma mentira, de campanhas com jovens ou às vezes até tem uma mulher um pouco mais madura mas toda ”photoshopada”. Não dá. Então a gente tem que ir trazendo, dando espaço cada vez mais pras mulheres maduras nas campanhas, seja na publicidade, na moda, na TV, e a gente tem que treinar o nosso olhar pra ver beleza também em uma mulher madura, porque tendemos a olhar uma mulher madura com pena, “Ah o tempo passou pra ela, ah ela não envelheceu tão bem.” Gente, né? Então é isso, é meio que é um assunto que precisa ainda ser muito debatido. Eu acho que só assim a gente consegue combater.

Como você acredita que sua história possa inspirar outras mulheres?

R: A minha história inspira muitas mulheres. Eu recebo relatos incríveis. Claro que inspira ver uma mulher madura na capa de uma revista. É o que queremos ver as mulheres fazendo, eu estou falando por mim, já fiz tantas campanhas e tem uns trabalhos tão bonitos que eu mesma nunca imaginei fazer. Então, às vezes eu me coloco no lugar de outras mulheres quando vejo uma campanha pronta. Eu adoro quando outras mulheres maduras estrelando uma campanha. E isso inspira. Eu mostro quando eu estou lá estrelando uma campanha, seja numa marca de carro, pra um banco, cosmético, de lingerie como eu pude ser a primeira modelo madura da Hope por exemplo. Fiz a primeira campanha, a segunda e foi um grande sucesso. Porque é isso, é importante pra gente se ver, que em todas as fases da mulher existe beleza. E não só beleza na juventude.

O que é padrão de beleza para você?

R: Não acredito em padrão de beleza. Então padrão de beleza é quem se sente bem na própria pele e quando a pessoa se sente bem na própria pele, automaticamente vem algo de dentro. Pode parecer clichê. Mas é muito real. Que a beleza vem de dentro. Quando fiz a transição eu me apropriei dessa fase madura da minha vida, eu escuto muito mais hoje em dia “Nossa como você é bonita” do que quando eu era mais nova. E não é porque eu estou mais bonita, é sobre a minha segurança, é sobre como eu chego num lugar, que eu estou muito bem. Sou muito segura, estou muito tranquila em relação ao passar do tempo, eu não me comparo com outras mulheres. Coisa que quando a gente é mais nova a gente faz “Ah tem corpo mais bonito, o cabelo… a pele não sei o quê” eu não tenho isso, sou eu comigo mesma. Então por isso que eu escuto tanto “Ah você é linda, você é linda” porque vem de dentro, é um clichezão mas é real. Então o padrão de beleza pra mim não existe porque eu estou… eu inclusive faço parte desse movimento mesmo que sem eu ter procurado isso, eu faço parte desse movimento de desconstruir padrões de beleza. Quando que a gente ia imaginar que uma grisalha tatuada fosse estrelar uma campanha de marca enorme como a Hope, por exemplo. Jamais. Então eu desconstruí esse padrão de beleza. Eu não acredito em padrão.

Envelhecer é… e envelhecer para mulheres é…?

R: Olha, envelhecer, né? Envelhecer no Brasil, envelhecer para mulheres. Não é fácil. Eu sei que eu estou falando dum lugar de fala de muito privilégio assim. Ah, muito fácil pra mim que estou em várias campanhas falar que envelhecer é incrível. Não é incrível. Porque existe preconceito. Mas uma tem que ir ajudando a outra. A gente tem que fortalecer dentro da gente essa ideia de “que bom que estamos envelhecendo”. É sinal de que o tempo tá passando e que nós estamos vivos e que a gente tem muita coisa ainda pra realizar. E no lugar do índice de só pensar em ter uma pele lisa, sem rugas, corpo maravilhoso, ir adquirindo sabedoria, experiência, conhecimento, ir trocando e trabalhando essa maturidade que traz um maior entendimento sobre as coisas, a ter uma maior paciência, porque a gente entende que a medida que o tempo vai passando vai chegando mais próximo de uma coisa que é certa para todos nós que é a morte. Quando você passa a entender que o envelhecer é isso, você está se aproximando cada vez mais da única certeza que todos nós temos que é a morte, e aí você começa a ser a ser mais gentil consigo mesma, a não ficar tão preocupada em manter o corpo assim, assado, rosto assim, sempre esticado pra parecer mais mais nova, etc. É aceitar o tempo. Envelhecer não é fácil porque existe o preconceito. Mas ainda assim pra quem tem o entendimento de que é uma fase da vida e que a gente tem que curtir todos os momentos da melhor forma possível, fica mais fácil. É desse jeito que eu surfo a vida. Eu não entro em grandes crises, não. Aceito as minhas rugas, aceito que eu faço ginástica e meu músculo não endurece, não vem o resultado tão rapidamente quanto vinha antigamente e nem por isso eu vou ficar me matando ou chorando. É aceitar a passagem do tempo.

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