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Acho que uma coisa passou despercebida da maioria das pessoas e mesmo dos profissionais de Psiquiatria e Neurociência chamados a opinar sobre o julgamento das celebridades Johnny Depp x Amber Heard: foi o laudo da perita indicada pela equipe do ator Johnny Depp, que indicava um duplo diagnóstico para Amber: Transtorno Borderline de Personalidade e Transtorno Histriônico de Personalidade. O que ninguém notou, inclusive a equipe Tabajara de Defesa da atriz, é que esses diagnósticos são mutuamente excludentes e faziam parte da tentativa da equipe de acusação de demonizar Amber Heard e pintá-la como uma louca inconsequente, no que foram completamente bem sucedidos.

 

Para quem não acompanhou essa espécie de Surreality Show de Tribunal, a mídia acompanhou avidamente cada dia desse embate judicial, com toneladas de fake news e tentativas de manipulação de júri e opinião pública. Tudo isso começou em 2016 e 2017, quando após o divórcio do curto casamento entre o ator de “Piratas do Caribe” Johnny Depp e a atriz menos consagrada Amber Heard, mais de duas décadas mais jovem, veio a público um artigo em que a moça afirmava ter sido vítima de maus tratos e violência física da parte de seu ex-marido. Johnny Depp, que tinha histórico de explosões de temperamento e comportamento violento contra mobílias de hotel por conta de abuso de álcool e outras drogas, teve sua carreira destroçada pela denúncia, com a cascata de cancelamentos que caracterizam nossa sociedade digital. Perdeu papéis importantes, vendeu propriedades e passou a ser visto como um covarde espancador daquela esposa jovem e magrela. Finalmente, ele abriu um processo por Calúnia e Difamação, o que rendeu o tal julgamento de quase dois meses. Johnny ganhou a causa e limpou o seu nome, Amber Heard virou a monstra que todos amamos odiar. Como eu tendo a achar que a opinião pública e o senso comum estão sempre errados, vamos ver a estratégia desenhada pela equipe de Johnny Depp para emparedar a equipe adversária (com grande sucesso).

Por que o Transtorno Borderline é mutuamente excludente com o Transtorno Histriônico de Personalidade? O Transtorno Borderline é um quadro crônico e grave de mudanças de Humor e Comportamento geradas pelo pavor e reação violenta a rejeições e abandonos, reais ou imaginários. Essa intolerância ao abandono gera a ativação de áreas cerebrais vinculadas à dor, o que pode gerar comportamento de autoagressão e em casos mais severos, tentativas de suicídio. É difícil uma moça com esse quadro ter uma carreira de sucesso. Amber Heard é mimada e prepotente e, pudemos notar, tem muita gente da Indústria do Entretenimento que não gosta ou abomina a moça. Ela não fica tentando desesperadamente ser aceita ou não ser abandonada. Antes disso, ela costuma rejeitar, abandonar e maltratar as pessoas e não a si mesma.

 

O Transtorno Histriônico se caracteriza pelo afeto superficial, a necessidade de manipulação de todos à sua volta, com a intenção consciente ou inconsciente de ser sempre o centro das atenções. Ao contrário do Transtorno Borderline, onde tudo vira um drama profundo e visceral, o Transtorno Histriônico está relacionado com pessoas com um afeto de plástico, uma quase ausente capacidade de vínculo ou de cuidado com as pessoas, embora consiga teatralizar que amam muito quando não amam quase nada. Parece uma descrição mais acurada das queixas de Johnny Depp com a moça. Como o leitor e a leitora podem notar, a contradição entre os diagnósticos da loira e bonitérrima perita de Johnny Depp poderiam facilmente levar outro perito a jogar toda a sua análise do caso no lixo, mesmo lugar para onde foi a carreira de Amber Heard.

 

Nas considerações finais da advogada de Johnny Depp, a também bonitérrima Camille Vasquez, foi construída à perfeição o argumento que Amber Heard, com sua necessidade absoluta de chamar a atenção sobre si, forjou uma história de agressão e abuso que não existiram, seja para se vingar, seja para se colocar no Trono da Vítima, lugar muito disputado nesses tempos de Redes Sociais. Trata-se de um jogo de expor publicamente quem sofreu a maior violência e quem é o maior monstro perpetrador. Isso esvazia as histórias VERDADEIRAS sobre abandono, abuso e violência que estão sempre acontecendo nos lares e nas relações humanas, muito frequentemente as mais próximas. Depois da fake News, temos as fake victims, que obscurecem e desvalorizam as milhares e milhares de mulheres que sofrem de violência e abuso doméstico. Camille Vasquez pintou a atriz Amber Heard como uma fake victim, que montou uma acusação teatral para receber atenção, clicks e likes.  Camille ganhou a ação e, antes disso, a opinião pública.

 

Uma outra terapeuta, a do Casal, falou (e ninguém notou), que Johnny e Amber tinham um casamento disfuncional, com violências e agressões de parte a parte. A pessoa que atendeu e viu de perto o casal indicou, e ninguém percebeu, que a alegação de violência psíquica e ameaças físicas foi referendada pela única pessoa com uma visão imparcial de como a dupla funcionava. Como na maioria absoluta dos casamentos disfuncionais, nunca há só um mocinho nem só um bandido.

 

Esse caso lança luz sobre nossa era de linchamentos digitais e a pressa em condenar antes de saber o que minimamente aconteceu. A necessidade de se ter opinião sobre todos os assuntos, principalmente aqueles que não conhecemos. E, infelizmente, tira o peso das alegações de quem realmente sofreu violência e abuso.

 

 

*Marco Antonio Spinelli é médico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade São Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiana e autor do livro “Stress o coelho de Alice tem sempre muita pressa”

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